Por que faço tanta questão de participar das eleições e de todo o processo eleitoral?

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Por Mayka Wogue Nasci nos anos finais da ditadura militar e vivi na pele os resquícios da miséria em que o país foi lançado. Na infância, tínhamos de levar alimentos de casa para compor a merenda escolar e dependíamos da caridade para ter acesso à saúde. Vi de perto o flagelo e os horrores da hiperinflação, quando o dinheiro perdia o valor de um dia para o outro.
​Mas também vi a história se transformar a partir da reconstrução democrática. Acompanhei o nascimento e a consolidação do SUS — universalizando a saúde onde antes só havia desamparo —, o fortalecimento do ensino público, a redução drástica do analfabetismo e a expansão da seguridade social sob a égide da Constituição Cidadã de 1988.
​Ao longo das últimas décadas, vi a democracia se traduzir em avanços concretos: a estabilização da moeda, a criação de programas de combate à fome e de transferência de renda que tiraram milhões da extrema pobreza, o acesso inédito de filhos de trabalhadores às universidades, o reconhecimento de direitos trabalhistas e históricos para minorias e o fortalecimento de instituições que protegem o cidadão comum contra os abusos do poder.

Por outro lado, também testemunhei o quanto a democracia e as conquistas sociais são frágeis quando abandonadas à apatia ou ao extremismo. Entre 2019 e 2022, assistimos a um doloroso retrocesso e à perda vertiginosa de direitos: o desmonte de políticas públicas consolidadas, o ataque sistemático à ciência, à cultura e à educação, o retorno do Brasil ao Mapa da Fome e o desrespeito às instituições democráticas. Foi um período de duro aprendizado sobre o preço de negligenciar a política.
​No entanto, a resiliência do nosso povo e das nossas instituições prevaleceu. Esta quarta vitória de Lula e a restauração do projeto democrático e inclusivo nos mostram, com clareza, que estamos do lado certo da história. Mostram que o compromisso com a dignidade humana, com a justiça social e com a soberania do voto sempre vence o obscurantismo.
​A contestação do resultado soberano das urnas e o ataque à vontade da população demonstram uma grave falta de caráter e de respeito pelo povo e pelo Estado Democrático de Direito. Isso fica ainda mais manifesto no episódio da ampliação do horário de votação no segundo turno: utilizar essa medida como pretexto para questionar a lisura do pleito evidencia pura hipocrisia, uma vez que ambas as campanhas acionaram a Justiça Eleitoral e apresentaram petições com esse exato pedido. Demonstrar inconformismo oportunisticamente contra regras e decisões provocadas por si próprio revela apenas o desprezo pelas regras do jogo republicano.
​Há 38 anos me dedico continuamente ao estudo — não apenas do currículo formal, mas das dinâmicas sociais, da economia, da história e da imensa pluralidade cultural do Brasil. Meu posicionamento político não deriva de slogans eleitorais, bolhas de redes sociais ou conveniências pessoais. Na minha balança, o que pesa são os direitos humanos e sociais, a política econômica responsável, a soberania nacional e a integridade democrática.
​Diante do simplismo de quem tenta interromper com um “Ah, mas você…”, sou clara: o debate político qualificado eu reservo a quem estuda e compreende a nossa sociedade. Aos que carecem desse lastro intelectual, garanto o pleno direito de manifestação, pois o pluralismo é basilar no regime democrático.
​Defendo o seu direito de se expressar, ainda que embasado em premissas equivocadas. Só não confunda as coisas: liberdade de expressão jamais será salvo-conduto para a prática de crimes.

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